Eu sou Boris. Assim, mesmo, sem acento. Um Boris russo, escandinavo. Mas só no nome.
Um dia encontrei Doris – assim, idem, ibidem. Doris me derrotou. Fez de mim gato, sapato, me chamou de gaveta e de lagartixa. E saiu rebolando o assento que ela tinha.
O mal foi – segundo ela – o assento que eu não tinha. Sempre no vento, sempre ao relento, reles, relegado, fazendo plano, só de fundo. Doris queria assento, queria acento. Que eu me assentasse, que acentuasse uma qualidade qualquer nela que eu, pobre de língua, não consegui definir.
Mas se acento ela não tinha, não era eu que iria pôr. Cada um que seja responsável pelo seu – encontrá-lo, colocá-lo em evidência, registrá-lo em cartório se for o caso.
Doris se foi, gritando aos quatro ventos que a culpa era minha. Vai, Doris, vai. Quem sabe algum francês com dois acentos te compense. Que eu vou é procurar uma inglesa.
(Brincadeirinha lingüística que eu fiz há muito tempo – acho um pouco hermético, mas me diverte.)