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As maravilhas da tradução

Fui me servir de suco no restaurante do hotel, em São Paulo (capital). E lá estava:

Suco de Manga. Sleeve Juice.

Depois que eu consegui parar de rir, fui dizer ao garçom para consertar.

Ah, as maravilhas da tradução eletrônica. Para quem também não sabia, “sleeve” é manga, sim. Mas de camisa… Manga fruta é “mango”.

Agora imagine se um falante do Inglês aprende que manga é a parte da camisa, e depois lhe oferecem suco de manga…

Dar livros de presente para crianças (aliás, para todos) é ótimo, mas é preciso escolher bem. Para começar a escolha, você, adulto, tem que achar o livro divertido e inteligente. Sente-se no chão da livraria, folheie, leia, aprecie o livro, imagine-se lendo-o com a criança.

Aí vão algumas dicas de bons livros infantis de uma voraz leitora, professora, tia e mais recentemente, mãe:

  • Livros sem texto (para todas as idades: bebês gostam de olhar as figuras, crianças não alfabetizadas podem contar a história, as alfabetizadas podem até escrevê-la. Os citados abaixo, particularmente, são divertidos, inteligentes e instigantes o suficiente para agradar também aos adultos).

1. O Ratinho que morava no livro , da Ed. Melhoramentos. Faz parte da coleção Ratinho, da autora Monique Félix. O título diz tudo. Os outros livros continuam as aventuras do simpático roedor, incluindo seu encontro com letras, números e cores. Preço: por volta de R$15.

O Ratinho que morava no livro

2. A flor do lado de lá e O próximo dinossauro, de Roger Mello, Global Editora. Ilustrações de primeira, maravilhosa seqüência narrativa, para divertir e fazer pensar. Preço: por volta de R$20.

A flor do lado de lá           

3. Olho Mágico, de Roberto Caldas, Ed. Paulus. Lindo, surpreendente, atiça a imaginação. Preço: por volta de R$10.

 

E se eu for asmático, coloco muitas vírgulas?

Existem muitas regras para o uso da vírgula, mas assim como com a crase, o pior é colocá-la onde não pode.

Então vamos lá: não coloque vírgula entre o sujeito e o verbo, nem entre o verbo e seus complementos. (Mesmo que a frase seja longa e você tenha que fazer pausas na leitura oral).

Assim: O diretor da Faculdade de Direito da minha cidade disse que vão ser tomadas todas as medidas necessárias para melhorar o desempenho dos alunos no exame da OAB.

É, assim mesmo, sem vírgula. Mas pode respirar à vontade.

Como se fosse fácil,
eu me divido em dois
e enquanto a metade fica
bordando invisíveis luares,
a outra, que também sou eu,
anda solta pelos mares.

E enquanto a metade fica
trançando o azul das tardes,
a outra, que também sou eu,
anda louca pelos ares.
                  Roseana Murray, Recados do corpo e da alma

Adoro as poesias dessa moça, de uma profundidade enganadoramente simples.

A homepage dela é www.roseanamurray.com

Esse poema me lembra muito o Ferreira Gullar:

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
De Na Vertigem do Dia (1975-1980)

The road not taken

Meu favorito do Robert Frost (1874-1963):

THE ROAD NOT TAKEN 

Two roads diverged in a yellow wood, 

And sorry I could not travel both

And be one traveler, long I stood

And looked down one as far as I could

To where it bent in the undergrowth; 

Then took the other, as just as fair,

And having perhaps the better claim,

Because it was grassy and wanted wear;

Though as for that the passing there

Had worn them really about the same, 

And both that morning equally lay

In leaves no step had trodden black.

Oh, I kept the first for another day!

Yet knowing how way leads to way,

I doubted if I ever should come back. 

I shall be telling this with a sigh

Somewhere ages and ages hence:

Two roads diverged in a wood, and I-

I took the one less traveled by,

And that has made all the difference.

Crase, ah, a crase…

Dica muuuuito básica: só ocorre crase antes de palavras femininas. Portanto, parem de colocar o acento grave antes de palavras masculinas e verbos: a cavalo, a partir, a prazo, a 500m, de 12 a 15 dias, começou a chorar…

Exceção: quando na expressão “à moda de” o “moda de” vier subentendido, pode parecer que ocorre crase antes de palavra masculina: um poema à Fernando Pessoa, ou seja, um poema à moda de Fernando Pessoa.

               Estar grávida é uma delícia. Você se sente o centro do universo. Todos que te conhecem ficam super felizes com sua barriga. Os mais chegados fazem tudo para te agradar, até descobrem coisas que você gosta de comer para te oferecer. O marido não sabe o que faz para te deixar confortável. Amigas que você não via há anos telefonam para dar os parabéns e dividir histórias e conselhos.

Mas o mais espantoso é a reação dos que não te conhecem. As pessoas sorriem mais para você. As pessoas puxam mais conversa com você. Muitas não resistem e, achando que a sua barriga é pública, vêm logo passando a mão. Isso quando não aparecem uns adoráveis doidos que querem conversar com o bebê que ainda não nasceu. Fora a maravilha que é você furar fila de banco, de repartição pública, até aquela fila monstruosa para assistir ao lançamento do filme mais esperado do ano. Tudo é para você. O melhor lugar, o primeiro pedaço (e o último, o mais gostoso…), o sorriso mais aberto, mais carinhoso, os votos mais sinceros de felicidade… Mas aí…

Aí chega o grande dia. Você ainda é o centro das atenções, claro (Aproveite, que está acabando…). E, finalmente, nasce o herdeiro! Que maravilha! E enquanto você está lá, dolorida, perdida, sem saber o que fazer direito com aquela coisinha amarrotada que só chora, todos agora só têm olhos para ele. O Bebê. Que lindo, que fofo, parece com fulano, é a cara de sicrano, mas é a coisinha mais linda, e tudo bem, é mesmo. Mas e eu?? E eu, com que todos se preocupavam até duas horas atrás, que fim eu levei? Cadê eu? EU não era o centro do universo? Como é que agora, de uma hora (ou dez, ou doze) para outra, virei um par de peitos? E ainda por cima rachados? Todos os olhares são para ele. Todos os presentes são para ele. Todas as atenções, todo o carinho, todas as bênçãos. Se ele já pudesse comer, ganharia o bolo inteiro. Você lamberia as migalhinhas do prato.

Porque você virou Mãe. E, como ser Mãe é a coisa mais maravilhosa do universo, você deve estar radiante. Nas nuvens de tanta felicidade. E daí que você está cansada, com sono, assustada até o último fio de cabelo? Você é Mãe. E Mães são invencíveis. E invisíveis. O que importa é o Bebê.

Você deve saber fazer tudo, pois é tudo muito natural e fácil. Afinal, se até uma cadela sabe muito bem criar os filhotes, quem dirá você, pessoa pensante e inteligente, que ainda por cima leu tudo o que pôde para se preparar para esse novo papel. Isso é o que você pensa, aquilo em que você acredita, e é também o que você acha que os outros pensam. Então, está tudo bem? Tudo ótimo. O Bebê dorme bem, mama bem, faz bastante cocô? Sim, sim, sim. Precisa de ajuda com o Bebê? Não, não, não. Está tudo bem. Podem ir. Está tudo sob controle. E aí, se você chora mais que o Bebê depois que todos vão embora, é porque você não é normal. Onde já se viu? A Mãe do Bebê mais lindo do mundo chorando? Chorando de tristeza? De desamparo? De medo? De solidão? É uma louca, não é uma Mãe.

Além do mais, até o organismo da Mãe está preparado para cuidar do Bebê. É por isso que peitos não racham, pontos não inflamam, costas não doem, pés não incham. E Mães não têm sono – bem, pelo menos, isso é verdade: não existe mais o sono como se conhecia antes. Agora que o cordão umbilical foi cortado (!), a Mãe só dorme quando o Bebê dorme. Isso se não tiver roupa pra lavar, casa pra arrumar, visitas pra receber (e café para fazer e xícaras e copos e talheres e).

É o seguinte: esqueça sua vida como era antes. Acabou. Morreu. Quanto mais cedo você se conscientizar disso e se conformar, melhor. Porque não há saída. A coisinha amarrotada que chora é sua. Foi você quem fez. Inteirinha. É mesmo… Fui eu que fiz… E não é que se parece muito comigo nessa foto de quando eu era bebê? Os mesmos olhos, o mesmo ar…

Além do mais, Bebê fica lindo naquele conjuntinho amarelo que você comprou no começo da gravidez. Lindo. Além do mais, Bebê quando está dormindo, aquela carinha de anjo barroco (só faltam os cachos), aquela boquinha perfeitinha branca de leite (o seu!)… é irresistível, dá mesmo vontade de comer inteirinho. Além do mais, você jura que Bebê sorri pra você, se acalma quando está no seu colo, acha o seu leite o néctar dos deuses, prefere você a qualquer outra pessoa…

E ai, meu Deus, quando daí a um ano você for sair para trabalhar e Bebê pedir colo, segurar seu rosto com as mãozinhas mais macias, te der um beijo e um sorriso e disser Mamã… pode acreditar. Você voltou a ser o centro do universo.

Traduttore, traditore

Algumas expressões que cansei de ver traduzidas ao pé da letra:

  • state of the art: significa o que há de mais moderno, alguma coisa assim como “último tipo”. Sinceramente, “estado da arte” não significa nada em português. Mas quem sabe com a evolução da língua…
  • to be an item: ter alguma coisa (romanticamente) com alguém. Se alguém te perguntar “Are you two an item?”, está querendo saber se você tem um relacionamento com o fulano.
  • legend: LENDA. O cara é uma LENDA do rock, não uma legenda!! By the way, legenda é “subtitle”.

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